A Lenda das Sardinhas de Cabeça para Baixo — Origem e Memória em Azaruja
Entre as muitas histórias que dão alma à Azaruja, há uma que se conta com um sorriso e um certo orgulho: a de que, num ponto alto da terra, os seus habitantes “plantaram sardinhas de cabeça para baixo para ver se nascia o mar”. Durante décadas, esta frase correu de boca em boca nas aldeias vizinhas, ora em tom de troça, ora como símbolo da imaginação e do espírito peculiar dos azarujenses.
Mas, por detrás da anedota, esconde-se uma origem mais profunda, enraizada em antigas tradições ibéricas.
Segundo memórias locais, o episódio do “semear sardinhas” teve lugar em Azaruja por volta da transição entre o Carnaval e a Quaresma — um tempo de mudança e de purificação, marcado por festas populares que misturavam o riso, a sátira e o ritual.
Em Espanha, essa celebração era conhecida como “Entierro de la Sardina” (Enterro da Sardinha), uma tradição que simbolizava o fim dos excessos do Carnaval e o início da contenção quaresmal. Em tom burlesco, realizava-se um cortejo fúnebre onde se “enterrava” uma sardinha — representação da carne e da gula — para marcar o adeus à festa.
Os espanhóis que viviam ou trabalhavam em Azaruja terão tentado recriar essa festividade, dando-lhe o nome de “Enterro do Entrudo”. Vestiam-se de preto, transportavam um caixão simbólico e, no final, enterravam sardinhas — de cabeça para baixo — num gesto que unia o sagrado e o profano, a sátira e o ritual.
A cerimónia, contudo, parece ter caído no ridículo aos olhos das povoações vizinhas. Conta-se que a bizarria do ato — enterrar sardinhas de cabeça para baixo em pleno Alentejo — deu origem às expressões trocistas que ainda hoje ecoam nas lendas populares.
Com o tempo, os azarujenses mantiveram a festa, mas adaptaram-na à sua maneira: continuaram a celebrar o “Enterro do Entrudo”, substituindo as sardinhas pelo Bacalhau de Aliol, um prato de inspiração espanhola que se tornou tradição viva em Azaruja e que ainda hoje reúne a comunidade à mesa.
Embora a celebração do Enterro da Sardinha fosse predominante em Espanha, há registos de que também ocorria em algumas localidades portuguesas próximas da fronteira, como Santo António das Areias, reforçando a ligação cultural entre ambos os lados da raia.
A dimensão artística desta tradição foi eternizada pelo pintor Francisco de Goya, na sua obra “El Entierro de la Sardina” (O Enterro da Sardinha), pintada entre 1812 e 1819, hoje conservada na Real Academia de Bellas Artes de San Fernando, em Madrid. No quadro, Goya capta com maestria o espírito festivo e caótico da ocasião: figuras mascaradas, alegria e desordem, o riso e o grotesco — tal como acontecia nas ruas de Azaruja, há muitas décadas.
Assim, o mito das “sardinhas de cabeça para baixo” não é apenas uma anedota: é o eco de um ritual antigo que cruzou fronteiras, foi reinterpretado pelo povo e transformado numa marca identitária.
É a prova de que as lendas, por mais simples que pareçam, nascem sempre de um fundo de verdade — e que, em Azaruja, até o mar foi sonhado com sardinhas.
Fonte: Jorge Inverno